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A Dengue e as Bromélias
Anelice Lober*
Hoje discutiremos um assunto que sempre gerou polêmica devido à variedade de informações conflitantes nos veículos de comunicação. Tentaremos elucidar dúvidas e derrubar mitos - além de fornecer informações científicas - a respeito da controversa questão bromélia-dengue. As bromélias sempre foram estigmatizadas durante o combate à epidemia, mesmo aparecendo em pesquisas com um número percentual reduzido como criadouro positivo para o mosquito vetor do vírus da dengue.
Dentre as pesquisas principais, um estudo desenvolvido pelo Instituto Oswaldo Cruz da Fiocruz apontou que em locais de interface entre o ambiente urbano e o silvestre _ como é o caso dos parques e encostas de morros da cidade do Rio de Janeiro _ as bromélias não têm um papel importante na proliferação do mosquito da dengue. Foram monitoradas 156 bromélias no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, pelo período de um ano, cobrindo um total de 10 espécies diferentes. O resultado deste estudo apontou para o baixo índice de presença de larvas do Aedes aegyptis, gerando indícios que acabaram por redirecionar o trabalho de prevenção. Felizmente, nas recentes propagandas de prevenção já não encontramos mais a velha associação bromélia-dengue.

Segundo Elton Leme (1992), estudioso e pesquisador de renome internacional, as bromélias são as espécies sustentadoras da diversidade biológica nos ambientes neotropicais e funcionam como um tipo de "biômetro". Através da quantidade e diversidade de espécies, podemos inferir o grau de conservação de certos ecossistemas, como os atlânticos, e atinar para a riqueza faunística que encerra. Por isso mesmo, as comunidades de bromélias devem sempre ser consideradas em projetos de conservação e principalmente no manejo de parques nacionais e reservas ambientais equivalentes. Incrementando-se essas comunidades é possível acelerar a recuperação populacional das espécies animais e vegetais a elas associadas.
Por outro lado, um aspecto preocupante é a tendência que as pessoas tem de relacionar bromélias à proliferação de mosquitos e às conseqüentes epidemias daí decorrentes. Segundo Elton Leme, este mito data do inicio do século, quando A. Lutz constatou o desenvolvimento de larvas e pupas de mosquitos nas águas acumuladas dos tanques de bromélias na Serra de Cubatão.
A partir de então, as bromélias passaram a ser equivocadamente, consideradas as grandes responsáveis pelos surtos de doenças transmitidas por mosquitos.
Entre os anos 40 e 50, no sul do país foram combatidas através de três métodos: destruição manual, destruição por defensivos químicos e, por último, a sua destruição indireta mediante a eliminação do ecossistema florestal que as abrigava no entorno das cidades. Como era previsível, somente a última prática produziu resultados satisfatórios, o que equivaleu, segundo Leme, a matar o doente para acabar com a doença. As florestas sumiram, 19 milhões de bromélias se perderam, mas o mosquito sobreviveu, muito bem, obrigado.
Se pudermos conceber uma visão mais ampliada do problema, perceberemos que, além das bromélias, muitas outras plantas e microambientes florestais propiciam o surgimento de mosquitos. Hoehne (1951) já condenava os "métodos" devastadores empregados na questão bromélia-malária. Isso bem explica porque foi necessário arrasar a floresta para eliminar um diminuto habitante alado.
Certamente, não basta constatar a presença de larvas e pupas de mosquitos em bromélias para se concluir pelo eventual risco de epidemia que representariam. A própria dinâmica do microambiente de bromélias - com fauna rica e cadeias alimentares variadas - aponta ser mais relevante apurar o percentual de larvas que atingem a idade adulta e que conseguem abandonar a bromélia, comparando-se os resultados com outros criadouros potenciais no ambiente florestal.
Neste sentido, a questão bromélia-mosquito melhor se situa quando considerada a área geográfica envolvida. Reforçando tal entendimento, não devemos esquecer que os últimos surtos de doenças transmitidas pelo Aedes aegyptis, na cidade do Rio de Janeiro, terem ocorrido em locais e bairros onde não existe um único exemplar de bromélia, o que obrigatoriamente nos remete a uma reflexão mais profunda.
Jair Rosa Duarte, analista ambiental da Feema, explicou - em mesa-redonda sobre o tema no Rio de Janeiro em 2001 - que o Aedes aegyptis foi introduzido no Brasil na época do tráfico de escravos. Segundo o biólogo, o mosquito prolifera durante todo o ano, mas as autoridades só se preocupam em mobilizar a população no verão, mobilização essa essencial ao êxito no combate ao vetor da dengue. "As bromélias podem albergar o Aedes aegyptis , mas é freqüente abrigarem larvas de mosquitos não hematófagos" , segundo Duarte, "que são predadoras de larvas de outras espécies e, canibalisticamente, da própria espécie.
Deve-se portanto eliminar o eliminável... o prato colocado sob o vaso de bromélia - para que serve, já que na bromélia só é necessário colocar água em seu tanque? Na maioria dos casos, as larvas de Aedes aegyptis são encontradas nos pratos colocados sob os vasos," enfatizando a preferência do mosquito em colocar seus ovos em reservatórios artificiais de água limpa, uma vez que a água no tanque das bromélias é "suja" pela existência de micronutrientes no interior da planta (pequenas algas).

Em face ao acima exposto, podemos afirmar que a bromélia é fator de controle ambiental, e não de seu descontrole. Mesmo assim, tentamos buscar como alternativa um novo procedimento como medida de prevenção aos "supostos" ovos do Aedes aegypti no interior destas espécies.
A bióloga paulista, Alessandra Laranja do Instituto de Biociências da UNESP, durante sua pesquisa de mestrado descobriu que a borra do café produz um efeito que bloqueia a postura e o desenvolvimento dos ovos do mosquito da dengue, além de reduzir o tempo de vida dos insetos adultos. Em seu estudo demonstrou que a cafeína da borra do café altera as enzimas esterases responsáveis pelos processos fisiológicos fundamentais, como o metabolismo hormonal e da reprodução, sendo essa a causa dos efeitos verificados sobre a larva e o inseto adulto.
O processo é extremamente simples: o mosquito pode ser combatido colocando-se borra de café nos pratinhos de coleta de água dos vasos, no prato dos xaxins, dentro das folhas das bromélias, etc. A borra de café é produzida diariamente, em praticamente todas as casas, tem custo zero. O único trabalho é o de colocá-la nas plantas, inclusive sendo jogada sobre o solo do jardim e quintal. A vantagem da utilização da borra de café nos tanques das bromélias (01 colher de café mostrou-se suficiente) sobre os demais produtos caseiros testados é a de não provocar alteração no aspecto geral da planta.
O método generalizado no combate ao Aedes aegypti é o da aspersão de inseticidas organofosforados altamente tóxicos para homens, animais e plantas. Por esse motivo, produtores e colecionadores de bromélias sugerem um inseticida ecológico, testado e aprovado, denominado Naturalcamp; embora de custo mais elevado, é recomendado para grandes áreas plantadas de bromélias em jardins urbanos. Muito simples de ser preparada, a mistura de água comum com a água sanitária, é uma receita caseira que vem sendo muito utilizada, mas deve-se ter cuidado em relação a medida - 1 colher de café diluída em 1 litro de água - pois o erro pode ser fatal à planta.
E que vivam as bromélias! Fonte de prazer estético e de biodiversidade em nossos jardins e ambientes neotropicais, a família das bromeliaceae nos oferece inflorescências belíssimas ao alcance de nossa admiração cotidiana.

*Anelice Lober é arquiteta e paisagista, sócia diretora da Arqplant Paisagismo desde 1986 com diversos projetos premiados e executados no Brasil e no exterior, além de colecionadora de bromélias.
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