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RETROFIT – Você ainda vai fazer um

Lidia Smoleanschi*

Com certeza você já viu e ouviu esse termo utilizado várias vezes, e ficou se perguntando do que se trata exatamente e porque se fala tanto nisso.
Nesse artigo vamos tentar responder não só a essas, bem como a outras perguntas que se colocam e que vêm causando algumas confusões.

O que significa?
Retrofit é um termo técnico, proveniente do Inglês, inicialmente ligado à Engenharia Mecânica mas hoje em dia utilizado em diversas outras situações, incluíndo as edificações. O seu significado seria o de adicionar um novo componente ou acessório à determinado equipamento e/ou máquina, sendo que o componente adicionado não existia na época em que o equipamento e/ou máquina foi fabricado. Outra definição mais curta, encontrada na Wikipedia (em Inglês), diz que retrofit se refere à adição de nova tecnologia à sistemas mais antigos.

Um pouco de história
Apesar do termo retrofit ser utilizado desde os anos 50, começamos a vê-lo empregado em relação a edificações por volta de 2003/2004. Coincidência ou não, os termos do Tratado de Kyoto, assinado em 1997 por 37 países (Estados Unidos não incluído nessa lista) que comprometeram-se a redução dos gases formadores do efeito estufa, foram efetivados em 2005. Ou seja,a partir de então esses países foram obrigados a demonstrar terem atingido as metas anuais para redução de gases poluentes, metas com as quais se comprometeram ao assinarem o Tratado.

Mas antes disso, pricipalmente na Europa, começou-se a observar medidas visando os objetivos maiores estabelecidos para 2005. A disseminação do uso de lâmpadas eletrônicas que gastam menos enegia e o selo de eficiência energética obrigatório para diversos eletro-domésticos e carros, são alguns exemplos dessas medidas.



Paralelamente se iniciam várias pesquisas no sentido de identificar as fontes poluentes de forma a estabelecer estratégias no sentido de reduzir a emissão dos gases geradores do efeito estufa. Foi então que se verificou que as edificações – novas e existentes – eram os maiores emissores desses gases. Vale ressaltar que vários sistemas poluentes, como os meios de transporte e gases CFC utilizados como refrigerantes de geladeiras e sistemas de ar-condicionado já haviam sido alvos de tratados anteriores (Tratado de Montreal de 1987).

Como?
Essas pesquisas, e outras subsequentes, identificaram que as edificações – casas, prédios de escritórios, escolas, hospitais, etc. – despediçavam energia devido não só a utilização de equipamentos ultrapassados (elevadores, sistemas de ar-condicionado e de aquecimento, ventiladores, iluminação, distribuição e utilização de água, disposição de águas servidas, boilers, etc.), bem como o sistema construtivo utilizado causava o desperdício de energia. Falta de isolamento térmico adequado, "vazamento" de ar (aquecido ou resfriado) através de portas e janelas mal vedadas e/ou de fachadas envidraçadas, sistemas de esgoto inceficientes e poluentes, extensos jardins que necessitavam de irrigação constante, e que utilizavam plantas de proveniencia estrangeiras não contribuindo com o eco-sistema local, áreas com necessidade de iluminação constante, e vários outros itens, foram alguns dos aspectos identificados e avaliados.

No sentido de combater esses pontos, foram criadas legislações construtivas, que são constantemente revisadas, no sentido não só de evitar esse desperdício, mas também de atingir as metas estipuladas no Tratado de Kyoto. Em um primeiro momento, focou-se nas novas edificações, já que as novas demandas das legislações construtivas seriam mais fáceis de serem implementadas. Mas hoje em dia já há legislações semelhantes em toda a Europa, voltadas para as edificações existentes.

Mas é só isso?
Seria simplista atribuir a crescente prática do retrofit apenas a questão da redução dos gases geradores do efeito estufa e da sustentabilidade como um todo. Não podemos ignorar fatores econômicos mais gerais, que ajudaram a popularizar esse fenômeno.

A crescente utilização de computadores, celulares, TV à cabo, internet com conecção WI-FI e etc., fez com que surgisse a necessidade de cabeamentos e equipamentos específicos para essas novas necessidades. Paralelamente há uma modificação nas formas de trabalho, com a necessidade de espaços mais flexíveis que se ajustem rápidamente as mudanças que ocorrem nas industrias e companhias. No setor residencial de grandes centros urbanos, ococrre a dimimuição no tamanho das famílias causando uma maior procura por imóveis menores e mais próximos dos locais de trabalho.

À todos esses fatores, deve-se adicionar o ciclo da evolução urbana dos grandes centros – áreas cobiçadas em determinadas épocas muitas vezes se degradam por vários motivos. Essa degradação pode ocorrer por conta da expansão da cidade para outras áreas, por mudanças dos serviços públicos prestados ou mesmo por mudança da localização ou até mesmo a extinção de determinada atividade econômica que "sustentava" uma zona da cidade. Muitas vezes não ocorre a degradação, mas uma mudança de uso do local. Em todos os grandes centros pode-se lembrar de áreas que eram tidas como residenciais e que hoje em dia são caracterizadas como áreas comerciais. Provavelmente poucas pessoas gostariam de morar em áreas comerciais já que as mesmas raramente contam com serviços necessários e característicos ao uso residencial.



Com esse quadro, acredito que seja relativamente fácil visualizar as consequencias: imóveis vazios, sem uso, uma vez que não atendem mais aos quesitos necessários para sua ocupação – seja um prédio comercial que apresenta muitos compartimentos, quando o que as empresas querem é uma edificação que permita que seus funcionários trabalhem num espaço unificado ou uma fábrica com alta demanda energética que tem que se mudar para outra área aonde tal demanda possa ser suprida.

É no somatório de todos esses fatores que se opta por um retrofit. As modificações possíveis são variadas e podem incluir a adição e mudança de todas as tomadas elétricas de um imóvel pelo sistema mais novo, a instalação de painéis solares e celulas fotovoltáicas para aquecimento de água, troca de elevadores por modelos mais novos e eficientes, sistemas de captação de água da chuva para utilização na limpeza, troca de esquadrias, instalação de sistemas de gerenciamento de carros em garagens garantindo maior numero de vagas, até mudança de uso do imóvel bem como sua ampliação dentro das possíbilidades da legislação urbana vigente.

Reforma x Restauração x Retrofit
Um último esclarecimento se faz necessário devido a confusões na utilização desses termos. Quando se fala em reforma, na maioria das vezes refere-se a questões estéticas ou a melhoria na utilização dos espaços. Já o termo restauração está ligado a imóveis tombados e/ou protegidos por legislações de preservação e o foco é a manutenção das características originais da edificação. Muitas vezes, várias opções de modernização do imóvel são abandonadas por não serem condizentes com o estilo original do mesmo. O retrofit visa aumentar a vida útil do imóvel, seja através da implementação de novas tecnologias, da mudança de uso ou de valorização estética entre outros aspectos. Na grande maioria dos casos, verifica-se uma valorização econômica, uma vez que as opções dos itens a serem adicionados ao imóvel durante o retrofit levam em conta as demandas do mercado.

Em muitos caos, o refrofit é visto como um investimento pois as modificações feitas podem ser medidas não só na valorização do imóvel, bem como na redução nos custos de sua manutenção quando forem utilizadas medidas que reduzam o consumo de energia, água e de outros serviços público.

*Lidia Smoleanschi é arquiteta, com diversos projetos executados no Brasil e no exterior, incluindo retrofit de edificações residenciais e comerciais.

 
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